A nossa ciência não vale uma gota de chuva.
Estou impressionada com as imagens de uma enchente na televisão. Ouvir lamentos de um repórter pela fatalidade, sendo que este não se lembra de exigir o reflorestamento que pode prevenir situações como esta. Teimamos em nos isentar das responsabilidades e em nos vitmizarmos, mas não somos inocentes, nenhum de nós o é.
Uma senhora ainda gritou, na reportagem: "olha o pato, coitadinho!" O pato estava dependurado, imóvel, com um galho a lhe atravessar o peito; ele e a árvore haviam sido arrastados pela avalanche.
Somos todos obrigados a cuidar de coisas, objetos a que damos valor e por eles nos comprometemos e aprendemos a julgar as demais pessoas.
Jonas e Jackson, sobre eles eu refleti: eu os teria julgado mal se os visse na praça. Sim, eu certamente sentiria algum asco e, piedosa, sentiria tembém grande angústia por não poder ajudar o cãozinho.
O que Jonas vem me mostrar é que este julgamento é parcial. Não se pode avaliar a conduta de alguém sem se conhecer a sua história e o seu ambiente social. Jonas e Jackson formam uma família, a partir de um sólido acordo tácito. Não falo de amor, refiro-me à assunção da mútua dependência, do mútuo interesse.
Jonas me envia mensagens pelo celular da família, há o carro da família... O irmão de jonas se casará, haverá um outro carro e um outro fogão para a família; os pais passarão a viver às suas custas e jonas se casará e haverá outro carro a substituir o de seus pais idosos.
Sobrinhos e netos espalhar-se-ão, formarão outras famílias e este cilco vem se repetindo há milênios, porém corre agora risco de deixar de existir, porque não admitimos o nomadismo e a vida livre de famílias profícuas e instituídas sob uma tradição que se perde na longa trajetória de ancestrais artistas mambembes que atravessaram continentes e se disseminaram pelo planeta. Jonas é uma centelha, a última folha de uma árvore frondosa.
Entregamos nossas potencialidades nas mãos de poucos de nós - meu pai dentre estes. Eu, filha de capitalista; eu, isolada neste quarto suspenso, com paredes de vidro e oxigênio controlado; eu, esta mulher envergonhada, descubro a simplicidade com que tudo acontece na vida.
A enchete, a caçada selvagem, dois fenômenos distintos, porque a primeira pode ser uma resposta aos nossos desmandos, a outra, não, é a amostra cotidiana e necessária da fragilidade da presa e do predador, a linha da interdependência, do equilíbrio.
Eu, com minha enchente particular, percebo a superficialidade deste espaço, de todas as minhas memórias e revejo o lugar do sentimento, das emoções.
Amor como eu amava é expressão de uma marca do meu tempo: assimilar a dependência em relação ao outro como uma obrigação. Poucos amores e amizades escapam desta triste regra: usar o outro para proteger a minha fantasia de natureza: eu, meus amores e amigos levando a vida, a vida barata, simplificada pelo dinheiro e pela sensação de haver nascido para o bem bom.
Agora, estou aqui, seca e afogada neste colchão d'água, acostumando-me às dores que passei a sentir e que sentirei pelos próximos anos, descobrindo que a minha história me torna inferior a Jonas e toda sua lógica familiar. A vaziez de minha existência deixa-me menor que Jackson.
Não sei onde isso vai parar, mas estou tranquila, apesar dos acontecimentos estranhos. Talvez sejam os remédios...
Hoje, esteve aqui nosso advogado de família e me fez assinar papéis, para me representar numa ação sobre o acidente. De que ele tratava, não me explicou bem...
Estou acuada, perseguida, abandonada. Sinto falta de Lúcio, já sei que ele não virá, algo mo diz. Estou tensa, uma hipopótama na jaula é levada a esperar por algo que ela suspeita nunca mais virá.
A javali, em cativeiro, transforma-se em porca, passa a comer o que lhe dão e a parir suas esperanças. Cada filho que ela expele poderia voltar a ser javali e, quem sabe... Não sabe mais, esqueceu-se a porca de sua juventude javali.
Eu espero, eu quero saber e descobrir. Como gostaria de haver parido Jonas e que ele nos trouxesse um Jackson! Contudo, não é assim, as pessoas são insubstituíveis. Jonas era algo necessário ao meu aprendizado.
Jonas é melhor que eu, Jackson me ensina a viver neste aquário, ele descobriu como se fundir ao outro e desta simbiose ocupar seu lugar no mundo. Tornar este mundo seu por meio de outro ser. E para esta realização não adiantam cálculos, ou regras. Há que se deixar educar pelos ditames da natureza.
Sinto-me ligada a Veronika e estou preparada para admitir que me interesso por ela, antes de a amar. Eu me sentia mais ou menos assim com um meu amigo... Onde está Lúcio? Por que ele não me vem ver?
