Os recônditos e tortuosos caminhos da redenção: de ser abissal a escaravelho, exemplos de que a sombra é o reverso imprescindível da luz.
Tenho dormido bem mais que o usual, nos últmos dias, por isso tenho escrito e desenhado menos. Normal, dadas as pressões física e psicológica. A primeira, resultado do trabalho das placas de platina a fazerem seu trabalho de restaurar minha perna e a última pela cada vez mais constante cobrança de todos para que eu restaure determinada centelha de minha memória recente.
Então, pensei que provavelmente minha dificuldade resulta do fato de eu estar perdida neste trajeto em que me vejo transitar lenta e forçosamente, desde que acordei do coma, após o acidente.
Pelo que percebo do que vejo em minha própria situação, toda necessidade de que eu me lembre do que quer que seja deve-se ao fato de eu haver provocado esta desgraça. Estou sozinha, destroçada e dolorida por minha exclusiva responsabilidade. Sendo assim, eu me pergunto: o que guardará para mim o meu futuro, depois que eu descobrir esta cortina de minha memória?
Sonhei que eu estava dependurada pelos braços, a perna a pingar sangue e minha boca tapada por pano embebido em vinagre e sal. Ah, acordei fria de medo!
Com certeza, são estas sensações que me atordoam e me impedem de recobrar a memória. Não consigo facilmente, depois de senti-las, estabelecer qualquer raciocínio, ou ao menos consigo me ater à urgência de me lembrar... Tudo me apavora e, quando estou assim, completamente paralisada pela angústia, lembro-me de Jonas, Jackson e dos filmes sobre animais que há meses tenho assistido.
Juntos, eles formam a senha para que eu possa conseguir ultrapassar este imenso obstáculo feito de asfalto, sangue, dor e sombra.
Penso que a aproximação entre Jonas e Jackson seja uma artimanha do destino, para a redenção de ambos, porque a adaptação dos seres a este ambiente se dá de formas bastante distintas.
Se julgarmos as estratégias naturais para acomodação dos seres em seus destinos a partir de uma moral humana, podemos acreditar que haja nelas alguma injustiça ou imundice. Do mesmo modo que eu jugaria inaceitável o trabalho duro do menino e do seu cão, eu tenho o nojo como meio de comunicação com os seres que se posicionam no que para nós seria o último lugar na cadeia evolutiva. Penso nos abutres e nos escaravelhos.
O primeiro, necrófilo alado, oportunista, barulhento e feio é um alvo perfeito para nosso julgamento atroz. Sem ele, entretanto, o mundo já não comportaria toda a matéria decomposta, descartada pelos animais, em sua luta cotidiana pela sobrevivência.
O que seria das populações que por hora sofrem com uma terríel enchente, se não fossem os urubus a comerem a carne podre do gado morto no dilúvio? Até consigo escrever uma máxima: todo recomeço é incompleto sem o término do que foi iniciado antes.
Para que a vida permaneça na Terra, faz-se necessário o trabalho dos abutres.
O mesmo pode-se dizer sobre os escaavelhos. De todas as cores e tamanhos, alimentam suas larvas com excrementos. Se um búfalo confia no trabalho de um vira-bosta para completar sua digesão e ajudá-lo a cumprir sua obrigção para com o planeta, nós, humanos, sentimos asco, quando nos lembramos de sentir por eles alguma coisa.
Quão hipócritas somos! Estaríamos cobertos de merda, sem esses bichos que, ao se posicionarem neste patamar da cadeia alimentar tornam possível nossa permanência neste planeta, ao tempo em que se transformam, eles próprios, em seres imortais pela natureza de seus trabalhos.
Os milhares de anos utilizados pelo tempo para estabelecer esta teia de relações e interdependências são equiparáveis aos meses em que me encontro neste limbo forçado. Depois daqui, estarei em outro ponto da minha rede social, fomentarei outros sentimentos nas pessoas e terei que reaprender a viver.
E se eu acabar por ser alvo e um julgamento feroz? E se cortarem a minha cabeça pelo que quer que eu tenha feito? E se não houver justiça diante da consequência do meu ato?
Ah, o que eu perdi naquele acidente, além de minha mobilidade?!
Sim, hoje estou aqui, escarevelho levada pelas chuvas, a buscar calor na lâmpada acesa.
Minha lâmpada, Jonas e Jackson, são minhas luzes.
Confio neles para ultrapassar este ciclo de horror em que me encontro agora.
