Nunca chegamos à verdade sobre os fatos. Ao menos em minha sociedade... A dúvida é nosso pecado original ou o castigo até o apocalipse.
Continuam as imagens da enchente. Ao lado de guerras particulares, assaltos espetaculares e bajulações, predominam as informações sobre a tragédia. Compadeço-me da desgraça daquelas populações, porém não posso deixar de me envergonhar da nossa alienação sobre as reais causas das catástrofes naturais.
Sempre procuramos nos destacar da natureza e, no reverso de nosso compadecimento pelo semelhante, antevemos a nossa reação ignota: culpamos a natureza pela tragédia.
Sinto como se a humanidade vivesse numa amnesia semelhante a esta que me acusam de estar acometida. Ontem, a psicóloga repetiu que há algo de que eu não consigo me lembrar, daquela tarde do acidente. Faço esforço, procuro rememorar cada instante daquele dia e nada parece faltar.
A festa, o vinho, os amigos, a moto, o carro em minha direção e eu agora aqui... O que falta?
Veronika diz que talvez eu esteja complicando tudo. Ela acha que estas minhas elucubrações sobre animais são confusas e disse ainda que Jonas pode ter-me embaralhado toda por dentro. Como assim? Tudo faz tanto sentido na simplicidade desta criança.
Jonas conhece o segredo da boa sobrevivência. Digo, ele tem um mundo particular que se completa em si próprio. Ele e sua família são autônomos e solidários entre si. Como podemos considerar este modo de vida selvagem? Como não justificar o fato de Jonas trabalhar arduamente, mesmo com seus poucos treze anos e uma cardiopatia que pode matá-lo?
Viver e morrer para Jonas são a mesma coisa; ele está seguro de sua relevância neste seu mundo próprio. Ele acredita no futuro, nesta vida e para além dela.
Ele não precisa de nosso "sistema", ele está certo da predominância dos bons sentimentos. Ele sabe que, à parte deste nosso "sistema", nós somos confiáveis uns aos outros, na medida de nossas necessidades.
Sim, porque Jonas também sabe: o que comanda nossas emoções é o interesse e a satisfação de nossas necessidades. Por aquele e por estas construímos as nossas leis e, para escamoteá-los e permitir o direito ao mando por alguns contra todo o restante, redigimos as sacrossantas metáforas religiosas.
Para que mais serviria a religião, senão para nos fazermos aceitar a dominação política ou econômica?
O intrigante é que, ao erigirmos as nossas civilizações, transferimos distocidamente a nossa vida selvagem à nossa vida "social", em vez de termos conseguido evitá-la. Nossa selvageria é maior hoje, do que na era das cavernas, apesar de toda a tecnologia.
Aliás eu, escrevendo para um blogue, num alto de prédio, isolada do mundo apenas por paredes de vidro, com a perna destroçada, religada por aparelhos de platina, sou a última pessoa isenta para proferir qualquer blasfêmia contra as maravilhas da inteligência e destreza humanas. Devo a elas a possibilidade de estar viva. Por uma mordidela de filhote de tigre, um filhote de empala pode morrer, se tropeçar e cair na fuga. Porém, eu confirmo que a transferência é distorcida, porque destruímos a capacidade de defesa dos mais fracos: em nossas selvas, eles sequer podem fugir.
Veronika perguntaria: "o que isso tem a ver com sua situação? Por que não se concentra no que você passa agora?" Eu lhe responderia: deixe-me caminhar pelos meus caminhos tortuosos! Eu confio em Jonas e Jackson como minhas lanternas.
Estou como um ser abissal. Este aquário suspenso é minha fossa oceânica e há um outro ser que veio me emprestar sua luz, para eu percorrer esta zona escura. Este ser é Jonas e a sua luz é Jackson.
Eu, um peixe transparente, uma bolha biológica tenho agora, finalmente, a oportunidade de me ver. É preciso calma, eu não quero me arvorar a concluir o que quer que seja. O alívio que Jonas me traz , este conforto ao desobrir que tenho todo o tempo do mundo, eu quero senti-lo intensamente, quero experimentar desta calmaria aqui nesta planície submarina, onde me sinto pressionada e perdida, como se eu fosse um estrangeiro nesta área longíncua do planeta.
Devo agradecer ao tempo, que me trouxe Jonas e sua simplicidade salvadora. Deixe-me ir flutuano, aquecida pela luz que, dependurada em minha boca, torna menos aguda esta dor n'alma, esta bomba latente, este ardor submerso em meus sentidos.
Se houver saída deste vale escuro, serão Jonas e Jackson quem ma mostrarão. Não estou me desviando de meu destino, apenas quero compreender melhor esta dor abstrata , intensa e atordoante, antes de senti-la, inequivoca e arrasadoramente.
