Eu também já tive um animal de estimação. Um cão, Tupã. Nome de Deus a um animal um pouco sisudo demais.
Eu me lembro de certo dia ter pensado que Tupã era um ser inútil. Ele não desempenhava, vivia apenas para comer e dormir.
Passei, por um tempo, a ignorar seus latidos e grunhidos, a achar que era vazia de sentido a sua ranzinzice atabalhoada demais para um pequenês. Mas, o que poderia dizer um cão que não aprendeu a fazer algo de útil ou engraçado?
No auge de minha juventude abastada e sem turbulências, deixei de rir de suas trapalhadas, perdi o interesse por seu chamado ao carinho e passei a discriminá-lo na presença da família e dos amigos.
Ele sentiu este meu distanciamento e também alterou seu comportamento... para com o mundo. Parou de comer, sentava-se no canto da sala, humilhado e largado à própria sorte.
Sim, eu o discriminei por ser inútil. Hoje, eu me pergunto se o amaria se ele fosse um Jackson. Eu rio, porque ele não era um Jackson, uma vez que eu não sou um Jonas.
Eu custei dias até perceber a angústia de Tupã, e para esta história não ser mais triste, ocorreu de eu ter sido a primeira a notar seu emagrecimento. Ninguém mais em casa se importava com ele.
Naquele dia, em que eu o mimei e o acolhi em meus braços novamente, eu percebi que ele merecia meu respeito por ser um velho cão imprestável que parecia ressentido pelo não reconhecimento de sua existência.
Afinal, pensei eu hoje, ele não chegou a ser um Jackson por minha culpa: eu não fui uma criança como Jonas.
Cresci privilegiada pela premissa do arbítrio, fui tocada pelo direito à fartura. Os animais, para nós, eram objetos valorizados pela sua função decorativa - como os cavalos da quinta, nos quais apenas meu pai e meu irmão montavam, pelo prazer de se sentirem mais másculos. Em casa, os dois cães que criamos faziam parte da mobília ou da nossa coleção de brinquedos.
O primeiro cão, Felix, foi anterior a mim e viveu apenas dois anos com meu irmão e fugiu. Tupã viveu conosco por doze anos. Morreu de um infarto fulminante três anos após o dia em que notei sua tristeza e lhe prometi companhia até sua morte, em respeito à sua maturidade de cão doméstico, vazio e ressentido.
Cumpri esta promessa e, depois dele, não criei nenhum outro animal; pesou-me aquele compromisso com Tupã.
Naquele momento, sentia-me atada por uma obrigação, hoje sinto-me envergonhada deste sentimento. Fui desrespeitosa e, cumprindo nosso hábito indecente, culpei o cão por sua prórpia escravidão.
Agora, estou eu cá sentindo remorso.
Remorso por haver mal-tratado Tupã, remorso por não conseguir ultrapassar esta dúvida e descobrir, de uma vez por todas, o que me falta lembrar da festa de aniversário de Felício.
Felício... Tupã, meus mistérios e minhas dores.
Hoje, sou novamente a caça. Sinto-me com a frivolidade inocente de uma rata, antes de ser abocanhada pela cobra e sou também o peixe a ser comido pela rata.
Sinto a dor dos que terão que se entregar.
Sou quem desprezou Tupã, sem perceber que a vaziez era minha.
Jamais caberia a Tupã adivinhar-se cão frente a minha humanidade presunçosa e idiota.
Ao contrário do peixe, que reconhece a ratazana e desta, que reconhece a serpente, Tupã deixou-se comer por uma certeza ancestral, segundo a qual para os cães - como para todos os animais, em princípio - seria vantajosa a dominação pelo humano.
Naquela tarde, Tupã explicou-me a sua perdição e a sua desonra. Eu admiti sua permanência em minha vida, contudo desmereci sua animalidade. Fosse hoje, reconhecer-mo-nos-íamos um no outro, como Jackson e Jonas, ou eu somente o ensinaria alguns truques e o levaria ao cooper de final de tarde?
Ah, se eu soubesse o que fazer com a obrigação de ser solidária, se eu houvesse aprendido a amar o que me cercasse, se eu conseguisse, ontem como hoje, enxergar algo para além de minhas pequenas necessidades, sim, com certeza, eu saberia responder ao que me perguntam os médicos e detetives. E Tupã seria a lembraça de um amor simbiótico e fraterno entre uma adolescente alegre e seu cão cheio de dúvidas.
