A morte anuncia-se antes de chegar. Não se denuncia, porque ela tem o direito de ser Morte. Alguém tinha que fazer o trabalho difícil.
A quem cabe ordenar sua vinda, se por acaso sobre sua vontade couber qualquer ordem?
Eu escapei dela. Perguntaram-me hoje: "você estava sozinha na moto, aquela tarde?". Meu Deus, eles não me perguntariam isso, se eu estivesse sozinha. Alguém morreu naquele acidente.
Eu não sei o que pensar, o que fazer. Sinto vontade de gritar.
Eu vou gritar!
Eu não quero ver o que eu tenho que ver. Eu vou me contorcer nesta cama, sentir a forte dor e acentuá-la, certamente irão me anestesiar. Mesmo dormente, estarei como se pendurada por um gancho, uma Prometeu com a perna cravada de espinhos. Quero arrancar esses aqui com a mão.
Veronika chegará em minutos e eu estou acompanhada de uma enfermeira e os psicólogos em atitude vigilante, sentinelas de meu drama e da raça humana inteira. Todos perderam agora algo significativo em seus destinos. Não sou a única vítima.
Estamos todos de luto. A morte de alguém muito amado. A minha morte... Ah, preciso...
Sou a felina que perdeu seu filhote aos búfalos. Sou a rã comida pela cobra, por vigança do gafanhoto por ela comido antes. Sou a vítima e a algoz de minha própria desgraça. A leoa derrubada por um grupo de ienas.
A águia cobreira, que perdeu seu ovo a um abutre e observa a serpente que irá comer, para manter-se viva e deixar
