Eu tenho explodido frases feitas, filosofia purista. E tenho tido esses sonhos terríveis. Resolvi escrever sobre este sofrimento, porque eu nunca fui muito de sentir. Eu vivia as sensações como se elas não se passassem comigo. Poucos acontecimentos viravam história para mim.
Eu, na verdade, me apercebi disso quando trabalhei para a publicidade dos bichinhos. Era uma marca de sabão em pó, com uns mascotes. Entrava um homem atrapalhado em cena, com as crianças fantasiadas de porquinhos, ovelhinhas, macaquinhos e, claro, vaquinhas, sobre o texto do locutor: "sem aprender (sujeira colorida enquanto os bichinhos desenham, conversam, brincam e praticam esportes), seu filho não conseguirá viver nesse mundo".
Ao final, o homem, já todo feliz brincava com as crianças. A mulher chega e se junta a eles na bagunça. Televídeo premiado, um sucesso. Hoje, acho esta mensagem um ato de extrema violência. Somente agora isso me fez sentir remorços. O fato é que depois das campanhas de dois anos atrás, estive sempre cheia de trabalho e ganhei burros de dinheiro.
Eu tenho apenas cumprido prazos, quase não desenho para além do que me pedem. E assim eu vejo como estou escrava do meu ofício. Como se ele se personificasse e eu passasse a trata-lo por Senhor e me esquecesse de todo o resto... Eu estou assim, sem vontades. Na verdade, eu e Verónica, ela também sempre cheia de matemáticas complicadas, finanças, dinheiro... Estamos mesmo um tanto vazias ultimamente, mas não chega a ser uma crise grave. Eu a amo inteiramente, seguramo-nos no quanto nos sentimos bem uma com a outra, e é exatamente isso que nos tem ligado: a nossa cumplicidade na solidão massiva do trabalho.
De uns dias para cá, eu verifico que nasceu uma bolha em mim, mas eu sonhei esta noite que estava atada a uma corrente presa a uma bola de ferro, mergulhada no fundo de um aquário globular. A corrente ao calcanhar esquerdo era suficiente para me fazer quase passar pelo fio d'água, sem o conseguir. Acordei!
Eu vi uma sala de estar, verde e marrom, alta. Eu estava na sala, no lado contrário ao da tv. As pessoas de costas para mim assistiam ao tele jornal! Foi súbito e muito real, desesperei-me. Acordei, respirei fundo, não me lembro de quando voltei a dormir. Isso ficou aqui, ruminante o dia inteiro, rabisquei, rabisquei e nem trabalhar consegui. Daí se vê que eu estou bastante descontrolada.
