segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Numa pele de cobra

Às vezes, a gente faz mal sem saber porquê. Dizem ser preciso vigiar e é verdade: é preciso constantemente a vigilância de si mesmo. Rezar são os minutos de folga, para quem reza. Quem fuma respira o vício, quem acredita depender de algo ou alguém vive a demência das horas sombrias de ressentimento.

Às vezes, a gente faz mal porque é preciso.
Faz mal e vigia, convence-se. Trilhar o caminho da dor para aprender que a dor é clara professora. A culpa é um delírio na voz alheia que grita em nós. Errado é impor a vontade sobre o mal ou dar razão a esta musa idílica e parva. Porque a precisão é de um Deus enorme, um negro resplandecente segredo no espaço, na vida: o Tempo, diria meu pai.

O pior é que crer nesse
fenômeno da natureza como Deus é um passo para justificar o passado, o que pode ensejar celebrações de atrocidades. Há quantos séculos estamos em guerra? Como num baile, em que ninguém vigia, como num festim, entre uma mordida e outra da hiena no bucho da zebra putrefacta.

O animal gosta do ócio.
Tornamo-nos escravos de uma de nossas mais cruéis invenções: o trabalho obrigatório. Fazer isso e aquilo, tantas horas por dia, em troca de água, comida e os confortos da vida tecnológica. Sem prazer, a vida é vã. A morte parece mesmo o portão do inferno para quem não conhece o gozo. Para os animais, tudo valeria a pena e seria pleno de sentido, se não fôssemos nós. Incluímos o medo no rol dos prazeres e isto jamais fará bem a nós ou aos animais, e eles também o sabem.

Prazer, dor, morte, submissão, liberdade, ilusão. Eu, que nunca fui de perder grande tempo com
firulas, tomei aversão ao silêncio, de uns dias pra cá. Eu tenho tido dias desesperados.

Em princípio, tudo está bem comigo mas, de repente, toma-me uma angústia seca, pesada e amarga. Canso-me toda. Tenho tido sonhos esquisitos. Esta noite, sonhei que tinha na pele de uma cobra e que as escamas me arranhavam por dentro. Não podia me mover, sem sentir o toque áspero no pulmão, no rim, no coração e na cabeça. a pele sobre a cabeça criava um som arranhado, como unha em parede lisa. Pessoas me tiravam fotografias, estávamos num estúdio de filmagem. Pediam para que eu pousasse, achavam magnífico! Eu chorava e estava nua, a me rasgar com as escamas.

Às vezes, a gente faz mal que nem sente. E leva a tarde a pensar no mal que fez. Fumaça azulada, azedume gentil, língua m
aior que a boca.