Já era noite, eu estava no ônibus com a janela infinita. A lua cheia, castanha como uma pedra aureada, resplandescente até o chão entre os prédios, sumiu numa praça quando descíamos até a vizinhança do bairro. Farmácias, cafés, açougues e padarias.
A meio do caminho, num canteiro mais alto que a estrada, destacou-se um cachorro esguio, com uma coleira preta com uma corda fina a mantê-lo próximo a um menino que segurava esta corda e mais outra, vermelha, de um segundo cachorro também branco, malhado com um castanho mais claro que o do outro, que era igual ao da lua, ainda escondida atrás dos edifícios num dos quais, provavelmente, aquele menino e seus cães viviam. Ele sentado a olhar a estrada, os cães alerta.
Animais domesticados são escravos numa condição surda, verdadeira esfinge, constante e impossível, pela qual aprendem a se tornar uma extensão física de corpos humanos, sendo-lhes esta a garantia de sobrevivência. A vida de um cão só lhe é favorável enquanto ele for útil a uma pessoa. Enquanto for um brinquedo, um guarda, um utencílio, ornamento ou ferramenta de alguém. Cavalo que preserva sua altivez é chicoteado mais vezes. A domesticação de um animal é um ato de horror.
É possível que um animal seja sábio? Estou certa de que os cães do menino sabem algo sobre suas vidas, que pode ser dividido em três informações-chave: há os cachorros atados, fortes e cuidados; os mal-tratados, os confinados, os adoecidos; ou há os abatidos em série, os esquecidos, jogados à rua turbulenta como um rio de onde não se tira nada, além do perigo imintente.
Estes cães sentinela do menino da praça alta não sabiam porém que eram seus únicos amigos naquele momento. Vigiavam-no para se vigiarem a si próprios. Os cães são leais porque têm medo. Será que eles imaginam fulgazmente uma vida ao natural? Por que não submeteram o menino e fugiram? Ainda tentam retirar suas coleiras? Eles não reconhecem a coleira de um no pescoço do outro.
Eu ando mesmo obcecada por animais... Quanto mistério! Ontem, tive duas visões. Mais cedo, já havia reparado num outro cachorro, na estação. Ele também trazia uma coleira, porém com uma corda partida. Deve ter uma história ligada às chuvas dos últimos dias. Se o for, pareceu-me ter fugido por medo da tempestade. Talvez estivesse sozinho durante a noite e escapou obstinado pela área alagada da cidade.
Era alto, preto e castanho. Parecia calmo. Estava molhado e sua cor marrom era muito diferente do castanho lunar, mais intensa e terrena, quase sem brilho. Havia neste cão uma esperança latente, que se despertava em sua cara, depois de alguns olhares longos, fixos, à procura de um rumo... aonde? Quem sabe já reconheceu que o seu dono tinha razão: melhor daquele jeito.
Estava muito confuso e nitidamente triste. Correu para a direita, parou, depois para a esquerda e parou novamente. Olhava em volta, buscava. Observei-o por instantes, desci pelas escadas e não sei o que ele fez da sua vida. Vi-o dar dois passos, parar, abaixar a cabeça e a cauda, olhar pra trás, para os lados. Deixei-o assim. Pensava ele em voltar para um cativeiro? Seu pelo molhado espesso e grosso parecia cuidado. Não havia marcas. Era um cão perdido. Lembrou-me Timbuktu.
E se eu tentasse ajudá-lo? No trem, consolei-me ao pensar que o que eu poderia fazer por ele em nada melhoraria sua sitiação. Ele seria entregue a outras pessoas, que o matariam depois de alguns dias, ou que o manteriam vivo, em meio a outros vários cães, formando um conjunto de provas vivas do quanto faz mal ao bicho a dependência do humano. Eu sinto estar realmente tocada por estas duas cenas. Os cães do menino não fazem mais que a sua obrigação?
Sou solidária aos medos. Tanto com um como com outros, pelo medo do medo, no planeta humano. Eu, por uma janela ou na estação, a panorâmica ou um contorno de rua.
